17.7.18

PRETTY BOYS FLY - Entrevista de Adore Delano para a Alt Press (maio/18)



    Adore Delano está perturbando a comunidade drag com seu jeitinho punk rock de fazer as coisas, pegando-a pelo pescoço e sacudindo o status quo. A antiga scene kid que virou estrela de RuPaul’s Drag Race está enchendo o buraco de nove jardas em seu coração com confiança, determinação própria e uma ferocidade que ninguém chega perto de igualar. Porque quando Adore triunfa, a vitória parece ser de todos os oprimidos e desajustados por aí.

    Adore Delano soa cansada. Ela acabou de voar de sua nativa Los Angeles para Denver para gravar um clipe musical, e em menos de dois dias ela embarcará em um avião para a Austrália para fazer uma série de shows de sua turnê. “Isso foi tranquilo, eu dormi durante a coisa toda”, ela diz com uma voz sonolenta quando perguntada sobre seu voo. Se alguém merece um descanso, esse alguém é Delano, nome artístico de Danny Noriega, 28 anos; cantora, compositora e uma das artistas drag mais populares trabalhando. Entre participações em turnês mundiais com outras drag queens, trabalhos em boates e sua própria agenda de shows como música, Delano passa uma boa parte de seu tempo na estrada. Entre as aparições, há gravação de clipes, compromissos com a mídia e meet & greets.

    A agenda apertada de Adore se dá, sem dúvida, pelo seu carisma irreprimível. Como artista, Delano é atraente sem parecer fabricada. Sua postura desleixada e de bom coração adorada por seus milhões de fãs (na época da entrevista ela tinha 1 milhão e meio de seguidores no Instagram) não é nenhum truque. Ela ri bastante e fala com um sotaque relaxado do sul da Califórnia. Ela termina cada frase com “dude” e “man”, um tique verbal parecido com o dos manos que não combina com o fato de que ela se veste como uma belíssima mulher e ganha a vida cantando músicas sobre seus sentimentos.

    Esta tensão – entre a personalidade calma, sul-californiana de Adore e o fato de que ela se torna uma mulher excepcionalmente bonita – ajuda muito a explicar um pouco de seu encanto. Drag queens não são, generalizando, pessoas tranquilas. Se apresentar em boates escuras para multidões de homossexuais e solteiras bêbados é uma tarefa difícil que geralmente atrai personalidades com muita energia e, às vezes, difíceis de ser manter. Em contraste, a abordagem de Delano tanto para conversas quanto para a arte drag é indiferente de um jeito charmoso. Nos palcos, ela geralmente deixa de lado os aparatos tradicionais de representação feminina (enchimentos para quadris e busto, vestidos longos, paetês, perucas empilhadas) para dar lugar a camisetas de banda rasgadas e coturnos.

    Essa estética, claro, não existe sem oposições. Outras drag queens famosas criticam Adore por sua perceptiva aversão a fazer drag “de verdade”, e comentaristas da internet a acusam de usar a arte drag como um artifício para impulsionar sua carreira musical. Quando perguntada sobre como se sente com esses tipos de críticas, ela responde em um tom prático:

    “Se você vai a um dos meus shows, você vai a um show com um personagem completamente bem pensado. Não preciso usar a arte drag para levar minha carreira pra frente. Isso só acontece porque sou uma filha da puta linda com cílios postiços. Sou um personagem bem pensado, então ouvir isso meio que me magoa, especialmente no começo. Mas todas as drag queens são pequenos e diversos universos, e se você não consegue enxergar que sou uma parte do arco-íris, então vá se ferrar”.

    O que está envolvido no processo de criação de uma drag queen rockstar? Quando perguntada sobre sua infância e a música que a formou, Adore responde com uma enorme gargalhada. “Crescendo, meu gosto musical era estranho! Meus irmãos tiravam sarro de mim porque eu tinha posters da Pink. Meu Deus, eu não queria dizer isso!”

    Mesmo que o pai de Adore fosse uma presença nada frequente em sua vida – eles quase não tinham nenhum relacionamento quando ele morreu há quase três anos –, ela cita o gosto dele por rock clássico dos anos 60 e 70 como uma grande influência inicial. Ela também explica que crescer no início dos anos 2000 impactou bastante suas sensibilidades musicais. “Eu diria que fui criada por Britney e Manson”, ela diz. “E as Spice Girls! Quando me perguntam qual minha banda de rock favorita, eu digo que são as Spice Girls. Durante o ciclo deste álbum, eu falei sobre muitas influências do rock, mas não quis perder minhas princesas do pop de vista”.

    Adore é o tipo de pessoa que parece ter nascido confiante, mas é óbvio que ser a criança queer no bairro que amava as Spice Girls e o Marilyn Manson não seria fácil. “Sim, foi complicado”, diz ela. “Cresci em Azusa, cara. Não é o lugar mais difícil para crescer, mas não é o mais fácil para uma pessoa queer, especialmente se você for afeminado. Você tem que realmente saber se defender e passar por certas situações. Quer dizer, eu já fui expulsa de um apartamento por caras com facas uma vez. Foi pesado.”

    Ano passado, Delano se assumiu como não-binária, mas no ensino médio, suas dificuldades foram aumentadas pelo fato de que ela se apresentava primariamente como uma mulher. “Eu passei praticamente meu ensino médio inteiro como uma garota”, ela diz. “Está no Google, então você pode ver meu eu de 14 anos parecendo uma vadia de 27 anos”. Ela ri, e então fica séria. “Eu tive que lutar por meu espaço no ensino médio algumas vezes”.

    Depois de passar pela puberdade, os sentimentos de Delano sobre seu gênero mudaram gradualmente, e ela passou a se apresentar de forma mais masculina, mas ela explica que seus anos de escola a ajudaram a consolidar sua decisão de viver a vida da sua própria maneira. “As pessoas costumavam ficar tipo ‘se você não quer lidar com isso, não se vista de forma tão extravagante’, mas é como eu me sentia. Era muito importante pra mim, como uma jovem pessoa queer, me expressar artisticamente e usar maquiagem e viver minha vida, mesmo que me confundissem com uma garota e me batessem. Enquanto eu estivesse bonita, eu me sentia importante”.

    Felizmente, Delano, que se assumiu aos 12 anos de idade, teve uma situação mais fácil em casa. “Minha irmã é lésbica, e ela é um pouco mais velha que eu, então eu a observava e tinha essa preparação”, Delano explica. E então tinha sua mãe.

    “Eu cresci em um salão de beleza – minha mãe é manicure – e eu conhecia todos os amigos gays dela lá. Ela saía com seus amigos gays e falava sobre isso. Ela contou aos meus irmãos duas semanas antes de eu me assumir que ela achava que eu ia contar a ela que sou gay, então eles precisavam pegar leve comigo”. Quando Delano realmente se assumiu para a mãe, a reação dela foi bem amena. “Ela estava cozinhando, e ela apenas disse ‘Não faça isso ficar estranho. Tire os biscoitos do forno’.”. Delano atribui seu temperamento notavelmente indiferente a sua mãe. “Eu puxei isso de não dar a mínima da minha mãe. Digo, ela não dá a mínima. Ela tem 50 e poucos anos, e ela ainda se mete em brigas de bar”, Delano ri. “Ela é louca”.

    A resiliência da jovem Adore foi posta a uma grande prova quando ela conseguiu uma vaga na sétima temporada de American Idol. Delano – naquela época ainda conhecida como Danny – conseguiu atenção por sua personalidade escandalosa e seu relacionamento audacioso com os jurados. Mas nos bastidores, ele recebia advertências da produção sobre sua sexualidade e apresentação efeminada. “Eu era muito interessada em maquiagem desde antes dos tempos de American Idol e tive que mascarar”, ela explica. “Eles não falavam ‘você precisa se masculinizar’, mas diziam que eu não podia cantar músicas de mulheres, e me falaram que eu provavelmente não deveria me assumir. Eu lembro dessa conversa de forma bem vívida. Para alguém de 18 anos, foi devastador.”

    Depois de deixar o American Idol, Noriega começou a fazer vídeos para o YouTube montado e a se apresentar nas boates de West Hollywood. “Eu estava envolvida na cena de boates de Hollywood a um tempo”, ela diz. “Depois que fiz 18 anos, minha mãe me deixava ir, então eu cresci cercada pelas grandes queens de Los Angeles, e eu as assistia performar. A primeira vez que me apresentei foi aos 21, no Micky’s de West Hollywood”.
    
    De acordo com Delano, a observação minusciosa das outras drags não é um fenômeno recente. “No começo, elas ficavam tipo ‘Quem é essa garota popular no YouTube? Será que ela vai entrar na nossa onda e tomar conta?’”, ela explica. “E eu estava, bicha! Eu estava derrotando elas em todas as competições, então elas estavam com raiva”. Ela ri, envergonhada. “Mas acho que elas gostavam mais do meu estilo naquela época, porque se parecia mais com uma drag queen, e eu costumava dublar e tudo”. Depois de trabalhar profissionalmente por três anos, Delano estava no elenco da sexta temporada do reality show de competição RuPaul’s Drag Race. Delano perdeu por pouco a chance de ser coroada, e sua atitude despreocupada cativou os fãs. (Ela chegou a responder a uma alegação de que sua visão de drag não era polida o suficiente dizendo que é “polish remover, bitch”). Depois, ela apareceu brevemente na segunda temporada de RuPaul’s Drag Race All Stars antes de, em um movimento sem precedentes, decidir deixar o programa. Entre suas aparições em Drag Race, Delano lançou dois álbuns, o de estreia, Till Death Do Us Party, em 2014, e After Party em 2016. O primeiro estreou em terceiro lugar na lista de álbuns Dance/Eletrônica da Billboard e em 11º na lista de álbuns independentes. O segundo estreou em primeiro na lista de álbuns de Dance/Eletrônica. Nada mal para uma criança de Azusa.

    Para compreender completamente o peso de Adore, é importante entender o que, exatamente, RuPaul’s Drag Race representa, tanto dentro da comunidade LGBTQ e na cultura pop em geral. Até atualmente, numa era de vitórias históricas nos campos cultural e legal para pessoas LGBTQ, as figuras de representação na mídia são abismais. Na edição de 2017 do relatório anual da GLAAD sobre representação na televisão descobriu que 6,4 por cento dos personagens em programas de TV eram classificados como gays, lésbicas, bissexuais ou transgênero, o percentual mais alto já registrado nos 13 anos da pesquisa.

    RuPaul’s Drag Race é, por contraste, uma desafiadora e intensa fantasia gay. Entrar no programa é um bilhete premiado para artistas drag, que costumam passar os anos após isso em turnês mundiais afiliadas ao programa. Mas algumas ex-participantes cresceram com suas participações no programa de forma inteligente o suficiente para transcender o nicho de entretenimento queer e apostar no sucesso mainstream. Dentre esta vanguarda de drags pioneiras, Delano é, sem dúvida, uma das maiores estrelas.

    A popularidade de Drag Race teve um número de consequências positivas para as queens que competiram no show e, por extensão, para a arte drag no geral. Se apresentar como drag profissionalmente, antes um jeito certeiro de se assegurar uma vida de isolamento e poucos recursos, agora se tornou uma carreira potencialmente lucrativa. A demanda súbita para esse tipo de arte criou uma indústria inteira de fabricantes de perucas, designers, fotógrafos, estilistas, cinegrafistas e administradores.

    Mas esse boom súbito não surgiu sem consequências. Muitos setores da indústria do entretenimento ainda empregam práticas de negócio desonestas, mas sem o benefício de uma união ou mesmo padrões de indústria colaborativos, artistas drag estão especialmente vulneráveis.

    “A maioria das minhas amigas é drag queen, e a gente não fez faculdade de negócios”, Adore explica. “A gente não sabia como seria ser lançada lá fora, e fazer todo esse dinheiro, e saber como controlá-lo. Digo, nós viemos de vidas diferentes. No começo você só trabalha, trabalha, trabalha, e é fácil tirar vantagem de alguém quando essa pessoa não está acostumada a fazer negócios”, mas ela adiciona, com uma gargalhada, “você sabe... Tenho advogados agora”.

    Esse comentário é uma alusão à batalha judicial em andamento entre Delano e sua antiga agência, a Producer Entertainment Group. Em abril de 2017, Delano entrou com um processo contra eles alegando que eles roubaram mais de 2 milhões de dólares dela pelo período de três anos. Em janeiro deste ano, a PEG contra-atacou, por supostas taxas de 180 mil dólares. Quando questionada sobre como estão essas batalhas judiciais estão no momento, Delano explica que está legalmente impedida de falar sobre isso, mas que está trabalhando com uma equipe menor e mais unida. “É sobre ter pessoas que você ama trabalhando ao seu lado. Digo, meu primo [John Padilla, seu atual agente], eu cresci com ele morando do outro lado da minha rua. Então agora eu tenho uma estrutura ao meu redor que é segura e na qual eu posso confiar”.

    Porque Drag Race é um dos poucos shows na televisão que fala diretamente com pessoas LGBTQ, muitos de seus fãs tem uma devoção intensa, e manter uma pessoa pública sem falhas no meio de toda essa intensidade começou a colocar pressão em Delano.

    “Eu acho que é bem importante as pessoas prestarem atenção”, ela diz, falando do estresse que isso pode causar. “Eu acho que a linha da humanidade das pessoas está meio cinzenta agora, sabe? Digo, nós temos fãs e estamos nos papeis de parede de seus celulares, então estamos constantemente em seus bolsos. Isso pode fazer algumas pessoas pensarem que você é um objeto, que pertence a elas. Então quando nos veem, parece que somos apenas seus papeis de parede; sou apenas a Adore Delano. Não passamos por merdas, nosso pai não acabou de morrer, não acabamos de passar por um término – não há nada acontecendo por trás desses olhos”.

    Apesar disso, sempre que ela sente que está se afundando demais em auto-piedade, ela se lembra de um conselho sagaz. “Minha mãe sempre me diz, ‘não importa o que aconteça, desgraça, pode reclamar ou o que for, mas não reclame com eles. Eles compraram um ingresso. O que quer que seja que esteja acontecendo, chore por isso nos bastidores’. [Risos] Tudo bem.”

    O custo que esse tipo de pressão – combinada com a pressão física e mental de manter agendas de shows tão lotadas – tem sobre grandes artistas drag ficou bem óbvio no começo deste ano quando Katya Zamolodchikova anunciou que ela tiraria uma folga de um ano de fazer drag para focar em seu bem estar. “Katya e eu éramos da mesma agência, e eles são muito exigentes, cara”, diz Delano. “Eles nos tratam como animais”. Ela cita isso como parte do motivo de sua recente mudança para Seattle.

    “É sempre no terceiro ano que você começa a ficar louco, e isso foi o que aconteceu comigo e porque eu me mudei pra Seattle”, ela explica. “Eu sou super reclusa; é apenas como eu sou. Eu pareço extrovertida, mas no fim de tudo, quando eu estou em casa, gosto de ficar sozinha. O terceiro ano, você enlouquece, e eu acho que você tem que tirar um tempo pra si, pra ter alguma perspectiva, e pra ver se estão tirando vantagem de você”, ela continua.“Eu perdi a cabeça por alguns meses por causa das minhas batalhas judiciais. É muito pra um ser humano aguentar”.
    
    O vídeo filmado em Denver era para uma das músicas mais destacadas do Whatever, 27 Club. O título é uma referência ao grupo de músicos e atores populares que morreram todos aos 27 anos de idade. Muitos dos artistas no clube, entre eles Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse, são o tipo de figuras altamente influentes cujas vidas foram ofuscadas por suas próprias lendas. É uma fixação inesperada, mas apropriada para uma drag queen cantora, já que drag queens são, por natureza, criaturas que se reinventam e criam lendas. A letra da música também dá pistas da turbulência mental que moveu a maior parte do disco e a mudança de Adore para Seattle em primeiro lugar. “Baby perdeu a cabeça/Ninguém lhe dá tempo/As drogas valem a pena/Ou é o que parece”, ela canta.

    No passado, Delano falou de forma um pouco vaga sobre o papel que as drogas e o álcool desempenharam na decisão dela de se mudar. Quando perguntada diretamente sobre isso, ela é bem franca. “Crescendo, eu nunca me apoiei em drogas e álcool, de verdade”, ela explica. “Quando eu comecei a fazer turnês com Drag Race, comecei a festejar mais para lidar com a falta de relacionamentos desenvolvidos. A gente ia conhecer esses humanos maravilhosos, e então lhes dizer adeus para sempre alguns dias depois, e isso me fazia mal pra porra”. Mesmo que ela nunca tenha ficado extremamente viciada em drogas pesadas, ela admite, “as vezes que eu as experimentei em turnê, eu misturava de qualquer forma, e os resultados de algumas delas foram terríveis. Festejar se torna parte do seu trabalho, mas você precisa lembrar que festejar não é seu trabalho”.

    Além disso, ela foi motivada por um desejo de tirar inspiração musical de uma cidade na qual ela nunca viveu mas admirou por muito tempo. Adore cita um número de importantes músicos do noroeste (Kurt Cobain, Courtney Love) e bandas do movimento Riot Grrrl como Babes In Toyland como grandes influências. “Acho que esse foi metade do motivo do meu espírito me guiar para lá”, ela diz, com uma de suas muitas gargalhadas. Nada surpreendentemente, Delano lidou com o comportamento gelado da cidade com confiança.

    “Sim! Eu fiz amigos”, ela exclama. “Sabe, eu sou um pterodáctilo social, então mesmo quando não estou nesse meio social, eu ainda vou estar em círculos sociais. Vai se ferrar, vadia. Você ainda está lidando comigo!”. O motivo principal, a mudança foi para ganhar espaço para mudar seu modo de pensar. “Eu queria começar do zero, e eu sempre quis criar raízes por lá por um tempo e ver o que isso ia fazer pela minha cabeça”, ela adiciona.

    Aparentemente, o efeito de Seattle em seu cérebro impulsionou um distanciamento de seus álbuns anteriores, mais dançantes. Em vez disso, ela escreveu Whatever, um álbum de rock alternativo. Abandonando batidas de pop eletrônico em favor de uma banda de rock tradicional, Whatever é um álbum de 11 faixas gritantes e verdadeiras de rock. “Você sabe, no início, Sharon [Needles, vencedora da 4ª temporada de Drag Race] fez música e foi legal, então eu fiz música e funcionou, e então todo mundo começou a fazer música, e começou a dar certo pra todo mundo. E aí eu pensei, ‘o que eu posso fazer para me diferenciar dessas pessoas? O que eu tenho desejado fazer?’. No começo, eu estava oferecendo o que eu achava que as rádios queriam, e eu estava ouvindo meus agentes enquanto escrevia. Mas agora, sou um pássaro livre. Eu gosto de sentar, fumar maconha, escrever um monte de músicas, gravar num estúdio, lançar e ver se as pessoas gostam”.

    Eventualmente, ela encontrou inspiração nos anos de sua adolescência que passou em bandas de garagem. “Eu percebi que eu era muito feliz no ensino médio em uma banda fazendo música trash, terrível. Soava péssimo naquela época, mas eu me divertia demais”, ela fala. “Então eu passei a me sentar com meus colegas de banda, fazendo músicas estúpidas que não faziam sentido, e decidi voar para o Arizona para gravar com Nathan [Morrow, produtor], e eu apenas sentei e escrevi. Foi tão orgânico e tão divertido, e foi tipo ‘Aí vai. Ninguém mais está fazendo isso. Podem ser que soa terrível e o que mais quiserem, mas não há nada igual! Que seja!’”.

    Mesmo que inicialmente Delano defina o processo de produção do disco como “divertido”, é claro, quando ela começa a elaborar, que, na realidade, o processo foi bem mais complicado. “A minha cabeça estava em um lugar muito sombrio”, ela diz. “Eu queria morrer em alguns dias, e [certas vezes] eu deixava de comer por três dias seguidos. Estava obcecada em acertar cada som, fiquei acordada por dias fumando e escrevendo”. No fim, ela diz, essa intensidade valeu a pena. “Nathan aguentou minha energia obsessiva e pariu meu bebê”.

    Nas vésperas do lançamento do álbum, Adore era constantemente questionada pela imprensa pelo risco envolvido em uma mudança tão drástica. Afinal, muitos de seus fãs foram presumivelmente atraídos por sua música precisamente porque era um dance-pop de coração leve, e rock não era um gênero no qual artistas drag tenham historicamente tido sucesso. Mas para Delano, as recompensas valiam mais do que qualquer risco.

    “Foi definitivamente um risco que eu queria correr porque eu estava na onda, e – eu sei que vai soar bobo – mas eu estava tão cansada de fazer turnês e cantar pop”, ela diz. “Eu só queria fazer o que eu queria de verdade fazer”. Agora que ela já lançou o álbum, os riscos parecem ter valido a pena. “Os fãs tem sido mais receptivos do que eu achei que seriam. Eu apenas rolei os dados e... hey, eles ainda me seguem, cara. Essa galerinha parece gostar de mim! Eu não sei porque eles gostam de mim, mas que seja! Eu aceito. E eu vou continuar fazendo as coisas que eu gosto”.

    Um dos melhores desenvolvimentos dessa nova direção musical, de acordo com Delano, é sair em turnê mais vezes com sua banda. “É apenas minha baixista, meu guitarrista e meu baterista”, ela diz. “Eu amo esses desgraçados, cara. Eles dão vida à música”. Quando perguntada se ela prefere sair em turnê com sua banda ou em um ônibus cheio de drag queens, ela revela: “Eu amo muito mais sair em turnê com a banda. É perfeito. Eu fiz esse álbum para me apresentar com uma banda, sabe? Parece tão completo, tão sólido. Me faz querer socar todo mundo na cara”.

    Um dos aspectos inesperados da fama de Adore (e da franquia Drag Race em geral) é o número de fãs extremamente jovens que atraiu. Antes apenas com a atenção e reconhecimento de fãs adultos em bares gays, as queens de Drag Race agora geralmente conseguem grandes números de seguidores adolescentes. Delano, em particular, parece ter atraído muitos dos fãs mais jovens da série.

    “No começo, eu não entendia muito isso, porque, você sabe, eu venho do gueto”, ela diz, com um grunhido auto-depreciativo. “A comunidade drag em que cresci não tinha crianças nos bares. Nós éramos vulgares pra caramba. Falávamos sobre coisas bem inadequadas. Então no começo eu ficava tipo ‘por que vocês estão dirigindo por horas para levar seus filhos para um bar para conhecerem drag queens?’. Mas, em mais ou menos um ano, eu percebi que Drag Race virou um completo fenômeno cultural. A galera está cada vez mais jovem, e estão vendo todas essas cores. Está abrindo os olhos dos pais, e isso tem um efeito nos filhos, e está criando esse lance legal. Esse pessoal é jovem e está salivando por drag queens na TV, na sala deles, logo após Love & Hip Hop, sabe? Eu amo isso, e eu amo as crianças!”. Ela então adota um tom reservado, como de palestra. “Whitney disse que as crianças são nosso futuro”.

    Adore parece surpresa quando perguntada se esse nível de atenção a deixa emocionalmente exausta. “Eu sempre lembro as pessoas quando eles me perguntam algo do tipo que eu tenho trabalhado com música aqui e ali desde que eu tinha 17 anos”, ela responde. “Quando eu comecei a fazer sucesso com isso, eu tinha tipo 19 ou 20, e tinham paparazzi, e eu ficava tipo ‘Que merda é essa? Como lidar com isso?’. Mas agora é tipo modo robô, cara. Eu me coloco no olhar público, então eu seria uma babaca se alguém viesse falar comigo enquanto estou saindo com meus amigos e estamos comendo algo, e eu ficasse tipo ‘estou comendo agora’. Eu sempre tento tirar um tempo para tirar fotos com as pessoas porque eu me coloco lá por vontade própria”. Além disso, ela adiciona, com uma risada: “Eu tenho que estar feliz por fazer o que estou fazendo porque eu não sou boa em mais nada. Tire uma foto! Eu vou parecer a porra da Pepper de American Horror Story. Eu não me importo”.

    Um grande efeito da popularidade de Drag Race, para o bem ou para o mal, é uma mudança na forma em que as queens são vistas romanticamente. Antes do programa, com sua ênfase em mostrar as concorrentes desmontadas, trabalhar como drag profissionalmente muitas vezes significava ser visto como profundamente indesejável.

    “Cara, foi uma mudança grande pra caralho”, Adore explica quando esse fenômeno é mencionado. “Mesmo quando eu estava começando, se alguém no Grindr descobria que eu fazia drag, ele me bloqueava na hora. Não era legal. Não era sexy. Minhas sobrancelhas estavam raspadas. Agora é tão diferente. Agora eles te sexualizam. Eu acho que é porque eles mostram a gente se desmontando no programa, na forma de garoto. O que quer que isso signifique. Isso nos mostra como humanos, o que é bom, mas isso também causou essa reviravolta”. Ainda hoje em dia, ela diz que sofre esse tipo de preconceito às vezes. “Depende da parte do mundo em que você está”, ela explica. “Às vezes eu mostro fotos minhas montada para alguns caras, e eles não vão gostar. Aí eles vão ver o número de seguidores que eu tenho e eles ficam interessados”.

    Quando perguntada sobre sua própria vida amorosa, Delano responde com sua risada característica. “No momento, não tem muito de vida amorosa. Digo, eu sou um espírito livre, e agora eu estou trabalhando tanto, e estamos tanto na estrada, que eu apenas acabo conhecendo pessoas casualmente. Fica sério quando tem que ficar sério, mas eu estou focando na minha música”.

   O que Adore pode fazer que Danny não pode?
     “Ah, tudo, cara!”, ela exclama. “Tem algo sobre essa máscara de maquiagem e a peruca de super-herói que faz eu sentir que poderia fazer qualquer coisa, menina. Quando estou montada, eu vou dar em cima das pessoas e ser paqueradora; quando sou Danny, eu fico de boa, geralmente estou chapado. É bem estranho”.

    Adore descreve Whatever como seu disco mais raivoso, e muita dessa raiva é, compreensivelmente, política. Muitos dos avanços legais feitos para os LGBTQ nos últimos anos parecem, à luz da administração atual, repentinamente fracos. Delano também é Chicanx, outro povo que sofreu com novas medidas políticas focadas em reforçar a imigração legal e deportar imigrantes não-documentados do México.

    “Digo, é devastador, cara”, Adore revela sobre os efeitos dessa repressão sobre sua própria família. “Isso realmente acende um fogo debaixo das bundas de todo mundo, porque que merda está realmente acontecendo, sabe? Foi bem delicado por um momento porque tenho algumas tias emprestadas da parte da minha mãe que poderiam ser afetadas por tudo. Não foi um momento legal para ninguém no nosso quarteirão”.

    Outra razão para seu crescimento em engajamento político foi o senso de responsabilidade que ela sente pelos fãs mais jovens. “Antes eu meio que fingiria demência, mas quando você algo tipo essa situação política, um desastre esperando para acontecer, você tem que no mínimo tentar fazer algo para parar isso. Se sua galera olha para você como um modelo a ser seguido, e você vê alguém tentando atacar sua galera, você tem que dizer algo, cara. Não apenas por você, mas pelo futuro, sabe? Há bebês que vão ter que viver aqui e limpar essa merda que esses desgraçados estão fazendo para eles. É difícil não falar nada.

    “Eu fui suspensa no Twitter por ir atrás de... qual o nome dela? Tommy Loren?”, ela fala sobre a autoridade conservadora Tomi Lahren. “Você não pode evitar falar merda, sabe? E eu não ligo se for suspensa, é tipo ‘volto em 12 horas, vadia!’”.

    Levando em conta o novo zelo político de Adore, tem havido algum interesse em como ela vê a pessoa da qual ela segue os passos mais diretamente, RuPaul Charles. No início do ano, RuPaul causou raiva a muitos fãs de seu programa quando, em um perfil para o The Guardian em março, ele disse que provavelmente não aceitaria um participante transgênero que tivesse feito cirurgias de conformidade de gênero ou iniciou a transição médica no programa. (Drag Race já teve participantes transgênero em temporadas passadas, mesmo que muitas delas só tenham se assumido depois de sua participação no programa, e nenhuma passou por cirurgias de conformidade de gênero antes das filmagens.) Levando em conta a linhagem imensa de artistas drag transgênero e o fato de muitos fãs do programa serem transgênero ou não-conformistas, os comentários iniciaram uma onda de raiva.

    “Digo, ele é de uma geração mais velha”, ela começa tentativamente, “e muitos de seus comentários estão fora de contato com o que está acontecendo, porque quando ele surgiu, muitos dos tópicos que estão surgindo agora não eram nem discutidos. Eu acho que ele apenas não entende como discutir esses assuntos e descobrir porque as pessoas estão com raiva”.

    Mas Adore é rápida em deixar claro que, mesmo que ela entenda as diferenças entre as gerações, ela acha a visão de RuPaul fundamentalmente falha. “Eu não quero falar merda, mas eu não entendo essa mentalidade. Cresci em uma geração na qual, se eu não entendesse algo, eu ia pesquisar e ler sobre isso. E vendo que os fãs estão cada vez mais jovens, e que a cultura drag está se tornando cada vez mais aceita, é um jeito bem horrível de se pensar. Drag começa com mulheres trans. Esses comentários são bem desconfortáveis, e sempre que ele diz algo do tipo, eu acabo no telefone com alguma amiga minha do programa e fico tipo, ‘Mana… ela precisa relaxar’”.

    Quando perguntada se esse tipo de comentário faz ela questionar pessoalmente o legado cultural de RuPaul, ela fica um pouco emocional.

    “Me faz questionar, é claro! Faz todo mundo questionar. Ficamos todas no telefone juntas dizendo ‘que porra está acontecendo?’ Podemos falar que é a idade, mas ela cresceu no meio da cultura drag também. Eu e um amigo estávamos no telefone naquela manhã e ficamos tipo ‘Ela está cansada? Ela estava dormindo quando twittou aquilo? O que está acontecendo?’”.

    Quando a entrevista vai chegando ao fim e ela é perguntada sobre planos para o futuro, Adore é vaga. Suas respostas, além do imediato (“No clipe que vou gravar amanhã, vai ter uma jiboia de um olho só, estou nervosa”), são vagas. “Temos alguns projetos no verão que vão ser muito divertidos!”

    Quando perguntada se se preocupa se sua carreira tem uma data de vencimento, ela parece calma. “Não me preocupo com isso”, ela diz. “Não é pra soar metida, mas eu fui esperta com isso. Não sou uma babaca, então fiquei muito próxima de alguns produtores. Eu sou recontratada quase na mesma época em que encerro uma turnê. Já estamos conversando sobre voltar à Austrália e a Nova Zelândia. Enquanto houver um mercado e pessoas interessadas na minha música, isso tudo vai acontecer.”

    No último ano, Adore passou por muita coisa – batalhas judiciais, turbulência emocional, mudanças dramáticas, tanto pessoalmente quanto artisticamente – e ela parece ter chegado a um ponto próximo à paz. “Eu não sei, cara”, ela diz, explicando sua nova abordagem. “Eu só tenho que começar a ver as coisas dessa forma, porque se não, você pode perder a merda da cabeça”.


Matéria por: Sam Chapman
Tradução por: Luisa Martins
Foto: Giselle Dias

Agradecimento especial: Lianna Gaudier, por fornecer a entrevista.

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